Tempos Brutos, Danças Furiosas
Let the joyful heart
that knows the dance return!Sorrow has banished it,
grief has stilled my feet.But there remains internal movement toward life’s margin
where all begins again in solemn beat.
«The Taste of Grudge», in Hard Times Require Furious Dancing, Alice Walker (2010)
Este ano, celebramos o facto de estarmos aqui. Rimos lado a lado. Seguimos ombro a ombro. Na alegria, que é também luta, alimento e semente de futuros possíveis, praticamos cuidado mútuo. Testemunhamos a resistência, a solidariedade e a cooperação que nos sustentam.
Inspirando-nos na tradição da alegria negra* e nas práticas de resistência afetiva que dela irradiam, na 13.ª MICAR, havemos de dançar furiosamente, como propõe Alice Walker. Não para esquecer a vileza do mundo, mas porque é também na alegria que recusamos a rendição. É nela que resistimos. Que nos afirmamos a vida.
No entanto, será difícil, nesta edição, não falar de brutalidade. Da força bruta que se lança quotidianamente contra tantas pessoas, em Portugal e no mundo. Na perseguição e criminalização de pessoas migrantes. Nas agressões e na desumanização de pessoas racializadas. Na intolerância e na violência dirigida contra pessoas LGBTQIA+. Na violência patriarcal, machista e misógina que insiste em controlar corpos, silenciar vozes e limitar modos de existência. No avanço de ideias reacionárias e supremacistas, promotoras de desigualdade e exclusão.
Seguimos, então, contra a violência e o ódio que se multiplicam a cada dia, nas ruas e nas redes, que entram em todas as casas e se amplificam em discursos políticos, em alterações legislativas, em desigualdades crescentes.
Não temos ilusões e não esperamos tempos fáceis. Mas é também por isso que escolhemos juntarmo-nos em torno da alegria. Queremos que se juntem a nós, de braços dados na luta, numa alegria que é também insubmissão. Dançando, em celebração e resistência, contra a barbárie, no cuidado que nos une e no mundo que ainda queremos construir.
* Black Joy consiste em celebrar existência, resistência, prazer, cuidado, criatividade e liberdade negras apesar do racismo, afirmando vidas, afetos e comunidade.
