Programa em resumo
Horário, título e realizador(es) de cada sessão — toca num filme para veres a sinopse completa mais abaixo. Entrada gratuita em todas as sessões.
Quinta-feira, 22 de outubro
Sexta-feira, 23 de outubro
- 10H00 — Pavilhão (Victoria Fiore) · Checkpoint (Jana Kattan) · A Maior Viagem (Crianças das oficinas do Anilupa)
- 11H15 — Ali, Aqui (Sony Furtado, Fábio Lima, Martina Maher, José Monteiro, Rafael Moura e Marlene Nobre)
- 17H15 — Black Joy (Kẹ́mi Fátọba)
- 19H15 — The Watermelon Woman (Cheryl Dunye)
- 21H15 — Alma Negra, do Quilombo ao Baile (Flavio Frederico)
Sábado, 24 de outubro
- 11H15 — Hit the Road (Panah Panahi)
- 15H15 — What We Said to Brussels Airlines (Collectif Faire-Part) · As Aventuras do Angosat (Isis Hembe, Resem Verkron e Marc Serena)
- 17H15 — Ali, Aqui (Sony Furtado, Fábio Lima, Martina Maher, José Monteiro, Rafael Moura e Marlene Nobre)
- 19H15 — Tongues Untied (Marlon Riggs)
- 21H15 — Move Ya Body: The Birth of House (Elegance Bratton)
Domingo, 25 de outubro
Quinta-feira | 22 de Outubro 2026
Black Is… Black Ain’t | Marlon Riggs | EUA | 1994 | Documentário | 1h27min | M/12 | V.O. Inglês, legendagem: Português
Realizado por Marlon Riggs pouco antes da sua morte, Black Is… Black Ain’t é um ensaio documental que interroga as múltiplas formas de viver e afirmar a identidade negra nos Estados Unidos. Partindo da metáfora do gumbo—um prato tradicional cuja riqueza nasce da combinação de ingredientes distintos—, Riggs recusa definições rígidas de negritude e confronta as fronteiras que, dentro e fora da comunidade negra, determinam quem é considerado “verdadeiramente” negro. Entre reflexões pessoais, imagens de arquivo e intervenções de figuras como Angela Davis, bell hooks, Essex Hemphill ou Barbara Smith, o filme aborda questões de género, sexualidade, colorismo, classe e pertença, revelando como o racismo se entrelaça com outras formas de exclusão. Ao mesmo tempo que denuncia essas violências, Riggs celebra a diversidade das experiências negras e reivindica uma identidade plural, aberta e em permanente construção.
Black Is… Black Ain’t lembra-nos que resistir é também recusar definições impostas e afirmar a alegria, a complexidade e a liberdade de existir. Um manifesto incontornável sobre a força política da pluralidade.

Sexta-feira | 23 de Outubro 2026

MICARzinha | Manhã | Sessões para os 1.ºe 2.º ciclos e Secundário
Pavilhão | Victoria Fiore | Brasil | 2025 | Documentário / Ensaio | 13min | M/6 | V.O. Português
A viagem mística de uma criança no tempo revela as suas raízes afro-brasileiras e as poderosas forças culturais que deram origem ao samba, através de gerações de luta e celebração.
Entre memória e imaginação, Pavilhão celebra os fios invisíveis que ligam África às suas diásporas. Um convite a descobrir como a identidade se tece na memória, na resistência e nas expressões culturais que atravessam gerações.
Checkpoint | Jana Kattan | Reino Unido | 2021 | Animação | 6min | M/6
V.O. sem falas.
Checkpoint acompanha Leila, uma criança de 11 anos que acorda antes do amanhecer todas as manhãs para tentar chegar à escola a horas. O maior obstáculo que enfrenta é a ocupação militar do local onde vive—mais concretamente, o infame posto de controlo (checkpoint) que tem de atravessar todos os dias nessa jornada. Apesar de fazer tudo o que pode para se preparar, Leila nem sempre consegue controlar a fila aparentemente interminável nem a forte possibilidade de lhe ser recusada, de forma aleatória, a passagem para o outro lado.
Há caminhos que parecem simples até deixarem de o ser. Checkpoint convida-nos a refletir sobre as fronteiras que, para algumas crianças, transformam um direito tão básico como ir à escola num percurso de incerteza e espera.
A Maior Viagem | Crianças das oficinas do Anilupa — Associação de Ludotecas do Porto: Alunos do 3.º A da Escola Básica do Bom Sucesso | Portugal | 2026 | Animação | 10min | M/6 | V.O. Português
Por vezes, basta sair do lugar onde sempre estivemos para descobrir que o mundo é maior do que imaginávamos. Entre novas paisagens, receios e curiosidade, desencontros e amizades, esta é uma história sobre a procura do seu lugar no mundo e sobre a maior das viagens: a que nos leva ao encontro dos outros.
Criado por crianças, A Maior Viagem lembra-nos que a diferença não nos deveria afastar, mas antes aproximar-nos de novas formas de conhecer o mundo e de viver em conjunto. Um olhar simples e imaginativo sobre a importância de acolher quem parece diferente de nós.
Ali, Aqui | Sony Furtado, Fábio Lima, Martina Maher, José Monteiro, Rafael Moura e Marlene Nobre | Portugal | 2025 | Ficção | 1h10min | M/12 | V.O. Crioulo cabo-verdiano, Português, legendagem: Português
Ali, Aqui nasce do projeto de cinema comunitário Atlas Almada e constrói um retrato do Monte da Caparica a partir das histórias de quem o habita. Tudo começa com um gesto simples: Rafa sai de casa para comprar vinho para a cachupa do almoço e, nesse percurso, cruza-se com outras vidas, encontros e pequenos acontecimentos que fazem desdobrar o filme em múltiplas narrativas. Entre hortas, ruas, cafés e bairros, surgem personagens que procuram um amigo, escrevem um poema ou negociam um corte de cabelo, compondo um mosaico onde a memória, a pertença e o quotidiano se entrelaçam. Realizado coletivamente por habitantes do território, Ali, Aqui transforma a experiência vivida em matéria cinematográfica, recusando representações estereotipadas e afirmando o bairro como um espaço de imaginação, afeto e criação. Mais do que um retrato de um lugar, o filme propõe uma forma de o habitar, através das relações, das histórias partilhadas e do olhar de quem o conhece por dentro.
Na MICAR, Ali, Aqui lembra-nos que contar a própria história é também um gesto de resistência. Um cinema feito em comunidade que celebra a força dos territórios e das vozes tantas vezes deixadas à margem.


Black Joy | Kẹ́mi Fátọba | Alemanha | 2025 | Documentário | 19min
Classificação etária: M/12 | V.O. Inglês, Alemão, legendagem: Português
Em Black Joy, Kẹ́mi Fátọba reúne artistas, ativistas e organizadores comunitários de Berlim, Londres e Nova Iorque para pensar a alegria negra como uma prática quotidiana de cuidado, criação e liberdade. Através de conversas íntimas, imagens de arquivo e uma realização que privilegia a proximidade e a escuta, o filme percorre memórias, gestos e experiências que desafiam a redução das vidas negras às narrativas de violência e sofrimento. Sem negar a história da opressão, reivindica uma outra genealogia, inscrita em movimentos como o Harlem Renaissance e o Black Is Beautiful, onde a alegria emerge como força política, espaço de imaginação e possibilidade de futuro. Mais do que um conceito, Black Joy revela-se uma experiência coletiva, feita de afetos, comunidade e celebração, afirmando que existir plenamente é, por si só, um gesto de resistência. O próprio processo de realização reflete esse compromisso, transformando o encontro entre quem filma e quem é filmado num exercício partilhado de confiança, generosidade e pertença.
Na 13.ª MICAR, Black Joy convoca o tema desta edição para afirmar que a alegria não é um desvio da luta, mas uma das suas expressões mais poderosas. Um convite a celebrar a vida, imaginar futuros comuns e reconhecer a liberdade como prática quotidiana.
The Watermelon Woman | Cheryl Dunye | EUA | 1996 | Ficção | 1h30min | M/16 | V.O. Inglês | legendagem: Português
The Watermelon Woman acompanha Cheryl, uma jovem cineasta negra e lésbica que trabalha numa videoteca em Filadélfia e decide investigar a vida de uma misteriosa atriz negra dos anos 1930, creditada apenas como “The Watermelon Woman”. Ao procurar recuperar a história desta mulher esquecida pelos arquivos oficiais do cinema, Cheryl confronta também os silêncios que marcaram a representação de mulheres negras e queer ao longo da história. Misturando ficção, investigação documental e elementos autobiográficos, o filme constrói uma reflexão sobre memória, desejo e representação, questionando quem é lembrado, quem é apagado e quem tem o poder de contar uma história. Com humor e sensibilidade, Cheryl/Dunye transforma uma busca pessoal numa reescrita coletiva da história do cinema, criando um espaço onde corpos, experiências e afetos tantas vezes excluídos possam finalmente ocupar o centro.
A proposta da MICAR para a secção Clássicos, The Watermelon Woman celebra a atualidade de uma obra pioneira que transformou o apagamento em criação. Ao inventar arquivos para histórias esquecidas, Cheryl Dunye lembra-nos que preservar a memória é também um gesto de resistência.


Alma Negra, do Quilombo ao Baile | Flavio Frederico | Brasil | 2026 | Documentário | 1h44min | M/12 | V.O. Inglês, legendagem: Português
Alma Negra, do Quilombo ao Baile mergulha na história da soul music brasileira, traçando os caminhos que ligam as memórias da diáspora africana às pistas de dança dos bailes black do Rio de Janeiro e de São Paulo. Realizado por Flavio Frederico, o documentário percorre o surgimento do movimento no final dos anos 1960, a sua afirmação na indústria musical e o papel central que estes espaços tiveram na construção de uma identidade negra no Brasil. Entre música, imagens de arquivo e testemunhos de artistas e pensadores, incluindo vozes como Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez e Edneia Gonçalves, o filme revela como a herança dos quilombos e as culturas negras urbanas se encontram numa mesma história de resistência, criação e pertença. Com a presença de nomes fundamentais da música brasileira, Alma Negra celebra a força de uma cultura que transformou a dança e a festa em lugares de afirmação política e liberdade.
Filme de abertura da mostra, Alma Negra abre caminho para o Black Joy, através da música e da dança enquanto formas de memória, resistência e afirmação coletiva. Um convite para continuar a festa: porque dançar também é uma prática de luta e liberdade
Sábado | 24 de Outubro 2026
Manhã | Sessão Famílias
Hit the Road | Panah Panahi | Irão | 2021 | Drama / Comédia / Road Movie | 1h33min | M/12 | V.O. Persa, legendagem: Português
Por estradas poeirentas do Irão, uma família atravessa a paisagem numa viagem marcada pelo humor, pela ternura e por uma inquietação que cresce silenciosamente. Em Hit the Road, o realizador Panah Panahi acompanha um pai, uma mãe e os seus dois filhos numa jornada onde brincadeiras, discussões e momentos de pura alegria convivem com uma realidade que permanece parcialmente escondida. Entre o cómico e o desconcertante, o filme desenha um retrato íntimo desta família, das coisas que se dizem e das que se calam, e da forma como os adultos tentam proteger as crianças das dores do mundo. Misturando drama, comédia e momentos musicais, Panahi cria uma obra profundamente humana sobre despedida, amor e memória, ao mesmo tempo que oferece um olhar atento sobre o Irão contemporâneo e as tensões políticas e sociais que atravessam o país.
Integrado na secção Famílias, Hit the Road é um convite ao diálogo entre gerações: um filme para ver em conjunto e pensar sobre aquilo que as famílias escondem, partilham e enfrentam. Uma reflexão sobre cuidado, liberdade e as formas como encontramos alegria mesmo perante tempos difíceis.


What We Said to Brussels Airlines | Collectif Faire-Part | Bélgica, República Democrática do Congo | 2026 | Documentário | 21min | M/12 | V.O Inglês, Francês, Neerlandês, legendagem: Português
Cem anos depois do primeiro voo entre a Bélgica e a República Democrática do Congo, a Brussels Airlines convida o Collectif Faire-Part a apresentar o seu trabalho a bordo dos seus aviões. O convite desencadeia uma reflexão coletiva sobre as possibilidades e os riscos desta colaboração: entre a vontade de fazer chegar uma mensagem anticolonial a milhares de passageiros e o receio de contribuir para uma operação de branqueamento da imagem de uma instituição marcada por uma história complexa. Através de conversas entre os membros do coletivo, imagens de arquivo e testemunhos sobre violência, deportações e heranças coloniais, What We Said to Brussels Airlines acompanha não apenas uma resposta a uma proposta externa, mas o próprio processo de construção de uma posição política. Um filme sobre ativismo, representação e responsabilidade, que questiona como agir dentro de estruturas de poder sem perder a capacidade crítica.
What We Said to Brussels Airlines convoca uma reflexão sobre as formas contemporâneas de resistência e sobre os desafios de dialogar com instituições atravessadas por histórias de violência. Um filme que transforma um convite institucional num espaço de debate, confronto e pensamento coletivo.
As Aventuras do Angosat | Isis Hembe, Resem Verkron e Marc Serena | Angola | 2026 | Ficção científica / Musical | 35min | M/12 | V.O. Português, Calão local, Umbundu, Língua Gestual Angolana, legendagem: Português
Man Ré sonha viajar até ao espaço. Em As Aventuras do Angosat, Marc Serena e Resem Verkron transformam esse desejo numa aventura musical e poética que atravessa a história, a imaginação e os futuros possíveis de Angola. Inspirado pelo lançamento do primeiro satélite angolano, o filme acompanha uma viagem onde realidade e fantasia se encontram, criando um universo em que o sonho de alcançar o céu se cruza com as marcas de um passado colonial e com as aspirações de um país que procura afirmar o seu lugar no mundo. Interpretado por artistas com diferentes deficiências físicas, o filme desafia ideias convencionais sobre corpos, movimento e capacidade, colocando no centro personagens que inventam novas formas de viajar, existir e sonhar. Entre música, humor e ficção científica, As Aventuras do Angosat celebra a imaginação como uma força capaz de abrir possibilidades para além dos limites impostos.
Em diálogo com What We Said to Brussels Airlines, esta curta musical propõe outra reflexão sobre o ato de voar: quem pode partir, quem pode imaginar futuros e quem tem o direito de ocupar o espaço. Uma celebração da diferença e da liberdade de sonhar para além das fronteiras herdadas da história.
Ali, Aqui | Sony Furtado, Fábio Lima, Martina Maher, José Monteiro, Rafael Moura e Marlene Nobre | Portugal | 2025 | Ficção | 1h10min | M/12 | V.O. Crioulo cabo-verdiano, Português, legendagem: Português
Ali, Aqui nasce do projeto de cinema comunitário Atlas Almada e constrói um retrato do Monte da Caparica a partir das histórias de quem o habita. Tudo começa com um gesto simples: Rafa sai de casa para comprar vinho para a cachupa do almoço e, nesse percurso, cruza-se com outras vidas, encontros e pequenos acontecimentos que fazem desdobrar o filme em múltiplas narrativas. Entre hortas, ruas, cafés e bairros, surgem personagens que procuram um amigo, escrevem um poema ou negociam um corte de cabelo, compondo um mosaico onde a memória, a pertença e o quotidiano se entrelaçam. Realizado coletivamente por habitantes do território, Ali, Aqui transforma a experiência vivida em matéria cinematográfica, recusando representações estereotipadas e afirmando o bairro como um espaço de imaginação, afeto e criação. Mais do que um retrato de um lugar, o filme propõe uma forma de o habitar, através das relações, das histórias partilhadas e do olhar de quem o conhece por dentro.
Na MICAR, Ali, Aqui lembra-nos que contar a própria história é também um gesto de resistência. Um cinema feito em comunidade que celebra a força dos territórios e das vozes tantas vezes deixadas à margem.


Tongues Untied | Marlon Riggs | EUA | 1989 | Documentário | 55min | M/16 | V.O. Inglês, legendagem: Português
Tongues Untied é um ensaio cinematográfico pioneiro sobre a experiência de homens negros gays nos Estados Unidos, combinando poesia, performance, testemunho e imagens documentais para romper com os silêncios impostos pelo racismo e pela homofobia. A partir das suas próprias experiências e das vozes de outros homens negros queer, Marlon Riggs constrói um espaço de partilha onde desejo, vulnerabilidade, amizade e resistência se encontram. Um filme-manifesto que confronta a invisibilidade e os estereótipos que atravessam tanto a cultura dominante como algumas das próprias comunidades negras e LGBTQIA+, afirmando a complexidade de identidades que durante muito tempo foram empurradas para a margem. Entre ritmos, palavras e gestos, Tongues Untied transforma a intimidade em gesto político e a expressão de si numa forma de libertação.
Numa edição dedicada ao Black Joy, a presença de duas obras de Marlon Riggs—Tongues Untied e Black Is… Black Ain’t—afirma a importância de um cinema que transforma a experiência negra e queer em celebração, beleza e resistência. Um cinema que dá corpo, voz e visibilidade a identidades historicamente silenciadas
Move Ya Body: The Birth of House | Elegance Bratton | EUA | 2025 | Documentário | 1h 32min | M/12 | V.O. Inglês, legendagem: Português
Move Ya Body: The Birth of House traça as origens da música house em Chicago, recuperando as histórias de quem transformou a pista de dança num espaço de liberdade, encontro e criação. Através da figura de Vince Lawrence, DJ e produtor pioneiro, Elegance Bratton acompanha o nascimento de um movimento que emergiu dos clubes underground do South Side de Chicago no final dos anos 1970, na continuidade da música disco e das culturas negras e queer que lhe deram vida. Entre imagens de arquivo, entrevistas e memórias dos protagonistas, o filme revisita também o contexto de rejeição e violência que marcou a era da disco, incluindo o episódio da “Disco Demolition Night”, revelando as forças racistas e homofóbicas que atravessaram a indústria musical. Mais do que a história de um género musical, Move Ya Body é um retrato da pista de dança como território de pertença, resistência e alegria—um lugar onde comunidades marginalizadas puderam criar novas formas de existir juntas.
Numa noite dedicada ao movimento e à celebração, Move Ya Body convoca o Black Joy através da música e da dança enquanto práticas de liberdade e pertença. Um convite para sair da sala de cinema e continuar a festa: porque dançar também é uma forma de resistência.

Domingo | 25 de Outubro 2026

The Flowers Stand Silently, Witnessing | Theo Panagopoulos | Reino Unido, Palestina | 2024 | Documentário / Experimental | 17min | M/12 | V.O. Árabe, Inglês, legendagem: Português
A partir de um raro arquivo de imagens a cores filmado em 16 mm na Palestina dos anos 1930, The Flowers Stand Silently, Witnessing revisita uma paisagem idílica de campos floridos. Ao encontrar estas imagens, o realizador confronta-se com aquilo que nelas está ausente: as pessoas palestinianas que habitaram e cuidaram desses lugares. Panagopoulos estabelece então um diálogo entre o arquivo colonial e as memórias daqueles que reconhecem nessas paisagens as suas próprias histórias—revelando como uma imagem pode preservar tanto quanto apagar. Entre flores que permanecem e comunidades deslocadas, a curta-metragem reflete sobre terra, memória e pertença, mostrando que a disputa por um território é também uma disputa pelas narrativas que o representam. Delicado e cirúrgico, o filme transforma imagens aparentemente inócuas num espaço de questionamento sobre os olhares coloniais e os vestígios que deixam. O desenho sonoro acrescenta ainda uma nova textura aos registos de imagem, fazendo ecoar, para além do arquivo, as histórias que nele permaneceram invisíveis.
The Flowers Stand Silently, Witnessing lembra-nos que resistir também pode ser um gesto de cuidado e recuperação da memória. Um filme sobre a força das raízes, das paisagens e das histórias que insistem em permanecer.
Foragers | Jumana Manna | Palestina | 2022 | Documentário / Experimental | 1h02min | M/12 | V.O Árabe, Hebraico, legendagem: Português
Em Foragers, Jumana Manna acompanha a prática ancestral de recolha de plantas silvestres na Palestina, seguindo comunidades que continuam a colher espécies como o akkoub e o za’atar apesar das restrições impostas pelas autoridades israelitas. Entre documentário, ficção e momentos de humor, o filme observa uma relação profunda entre pessoas, território e conhecimento transmitido entre gerações, revelando como gestos quotidianos podem tornar-se atos de resistência. Através das histórias de quem recolhe, cozinha e preserva estas plantas, Manna mostra como o controlo sobre a terra se estende também aos seus sabores, ciclos naturais e formas de viver. Com uma atenção particular à paisagem e ao dispositivo sonoro, Foragers orquestra uma tensão inesperada: os sons da natureza, dos passos e da espera transformam uma simples caminhada pela terra num momento de vigilância e incerteza, onde a ameaça está sempre presente. O filme é um retrato delicado sobre soberania, memória e a ligação entre uma comunidade e a terra que a alimenta.
Em diálogo com a curta-metragem The Flowers Stand Silently, Witnessing, a longa Foragers convoca a terra como lugar de memória e resistência. Um filme onde preservar uma planta, um saber ou uma prática ancestral é também defender uma forma de existência.
Pongo Calling | Tomáš Kratochvíl | Chéquia, Eslováquia | 2022 | Documentário | 1h18min | M/12 | V.O. Inglês, Eslováquio, Checo, Romani, legendagem: Português
Pongo Calling acompanha Štefan Pongo, motorista de camião roma que deixou a República Checa com a família para escapar à discriminação racial e construir uma nova vida no Reino Unido. Quando um discurso público do presidente checo reaviva estereótipos racistas sobre a sua comunidade, Štefan responde com um apelo simples nas redes sociais: pede a pessoas roma que partilhem fotografias dos seus locais de trabalho. O gesto torna-se viral, transforma-o numa figura pública e dá início a um percurso de ativismo que passa por manifestações, ajuda humanitária e uma luta constante contra o discurso de ódio. O filme acompanha as consequências desse compromisso na sua vida familiar, revelando o equilíbrio frágil entre o desejo de transformar o mundo e a necessidade de cuidar dos que lhe são mais próximos. Sem perder de vista o humor, a intimidade e os afetos, Pongo Calling constrói o retrato de um homem cuja história individual se cruza com a de uma comunidade inteira.
Na MICAR, Pongo Calling lembra-nos que combater o racismo também passa por afirmar a dignidade e a alegria de uma comunidade que se recusa a ser definida pelo preconceito. Um filme que celebra a força coletiva, a solidariedade e o poder de transformar estereótipos em histórias contadas na primeira pessoa.


Filme Pin | María Rojas Arias, Andrés Jurado | Colômbia, Portugal | 2026 | Documentário / Experimental | 7min | M/6 | V.O. Português, legendagem: Inglês
A partir de uma coleção de pins herdada, encontrada no sótão de uma antiga casa de família abandonada, Filme Pin constrói um ensaio cinematográfico sobre memória, exílio e ativismo político. Pequenos objetos aparentemente banais revelam-se vestígios materiais de lutas passadas, guardando marcas de solidariedade, resistência e pertença. Filmados em Super 8, com uma atenção particular às texturas, reflexos e detalhes, os pins transformam-se em protagonistas visuais e sonoros, evocando histórias que permanecem inscritas na sua superfície. Entre a imagem, o som e a materialidade dos objetos, o filme aproxima-se da memória como algo que se preserva, mas também como algo que continua à procura de ser descoberto. Cada pin torna-se uma pequena escultura de uma história coletiva, um fragmento de encontros e movimentos políticos que atravessam gerações.
A abrir para Born in Flames, o microscópico Filme Pin convoca a memória das lutas e das formas de organização coletiva que as sustentam. Um filme sobre os objetos que permanecem quando as vozes se afastam—e sobre a necessidade de continuar a imaginar e construir resistência.
Born in Flames | Lizzie Borden | EUA | 1983 | Ficção científica / Docuficção / Drama | 1h20min | M/12 | V.O. Inglês, legendagem: Português
Dez anos depois de uma revolução socialista nos Estados Unidos, Born in Flames imagina um futuro onde as promessas de igualdade continuam por cumprir. Nesta sociedade aparentemente transformada, as mulheres—sobretudo as mulheres negras, trabalhadoras e queer—continuam a enfrentar desigualdades e formas de exclusão que o novo sistema não conseguiu eliminar. A partir da ação de diferentes grupos feministas e das suas rádios piratas, Lizzie Borden constrói um manifesto político explosivo, onde vozes diversas se organizam, confrontam o poder e procuram novas formas de resistência. Misturando ficção científica, documentário, ativismo e estética punk, o filme cria um retrato fragmentado de uma revolta coletiva, questionando quem tem direito a imaginar o futuro e quem fica de fora das narrativas de progresso. Radical na forma e no pensamento, Born in Flames permanece como uma obra fundamental sobre a urgência da organização, da solidariedade e da transformação social.
Born in Flames convoca as memórias e as práticas das lutas feministas e antirracistas, mostrando que a resistência também nasce da imaginação de outros mundos possíveis. Um clássico do cinema radical que continua a incendiar perguntas sobre o presente.
Talking About Trees | Suhaib Gasmelbari | Sudão, França, Alemanha, Chade, Qatar | 2019 | Documentário | 1h33min | M/12 | V.O. Árabe, legendagem: Português
Em Talking About Trees, Suhaib Gasmelbari acompanha quatro amigos e antigos membros de um coletivo de cinema que partilham um sonho aparentemente simples: devolver o cinema ao seu lugar de origem, uma aldeia no Sudão, recuperando um antigo espaço de projeção, o Revolution Cinema. Ibrahim Shaddad, Suleiman Mohamed Ibrahim, Manar Al Hilo e Altayeb Mahdi dedicaram grande parte das suas vidas ao cinema, numa época marcada pela censura e pelas restrições impostas às expressões artísticas no país. Agora, mais velhos, enfrentam novamente obstáculos, burocracias e resistências para concretizar esse projeto, mas fazem-no com humor, amizade e uma profunda paixão pela imagem em movimento. Entre conversas, memórias e pequenos gestos quotidianos, o filme revela como o cinema pode ser uma forma de resistência e de construção comunitária—não apenas pelas histórias que conta, mas pelos encontros que torna possíveis.
Filme de encerramento da mostra, Talking About Trees olha para o próprio cinema como espaço de resistência, encontro e transformação. Uma homenagem a quem continua a acreditar que projetar um filme é também abrir um lugar para a imaginação, a memória e a liberdade.
