Corpos em Movimento: da migração, do desejo e do direito ao lugar
Desde que há registo da presença humana, a migração existe. Movem-se pessoas, percorrem-se territórios, cruzam-se povos e desenham-se fronteiras. Se o artifício humano, e as tecnologias que foi criando, contribuíram para que o mundo ficasse mais transitável, nem por isso permitiu que fosse para todos igualmente fácil atravessá-lo. Se a migração é tão antiga quanto a humanidade, a sua narrativa nunca é neutra. Demasiadas vezes, olhamos para quem migra apenas através da sua necessidade ou utilidade, reduzindo vidas a estatísticas, a impacto económico, a contribuições, a fluxos a conter ou a integrar, às necessidades de mão-de-obra ou de rejuvenescimento da população. Reduzidos a números, envoltos em narrativas de medo, e em perceções construídas para as servir, ignoram-se as realidades individuais e coletivas de migrantes que atravessam mares, desertos, postos de controlo e algoritmos invisíveis.
O mundo apresenta os números como avassaladores – mais de 258 milhões de pessoas migrantes em 2017 (3,4% da população mundial) – mas o fenómeno comporta-se com relativa estabilidade: 2,8% em 2000, 2,3% em 1980. Estes números pouco dizem sobre as complexas experiências humanas de quem se desloca, e ainda menos sobre os contextos de injustiça que motivam ou condicionam essas migrações.
Migrante é quem se desloca através de uma fronteira, ou dentro de um mesmo Estado, para longe do seu local habitual de residência. Esse movimento pode ser voluntário ou forçado, temporário ou permanente. Não importa o estatuto legal da pessoa, nem as causas da deslocação – importa reconhecer que nem todos os corpos cruzam fronteiras da mesma forma. No jogo político da mobilidade, os passaportes não valem o mesmo, e as peles de tons diferentes não encontram a mesma resistência ao passar.
O sistema que decide quem entra e quem fica retido opera tanto nos grandes tratados como nos minúsculos detalhes de um formulário digital, num carimbo negado, num scanner biométrico que regista certos traços e ignora outros. As novas formas de colonialismo não se fazem apenas pela força, mas também pelo código-fonte: fronteiras digitais complementam as físicas, sistemas de vigilância algorítmica decidem quem é uma ameaça, bancos de dados e burocracias estruturam exclusões que se pretendem neutras.
O lugar que cada migrante ocupa não é apenas geográfico, mas social. Para muitos migrantes, a primeira fronteira é a pele – barreira frágil para as agressões diárias, marca visível da suspeição, pretexto para interrogações aleatórias e violências estruturais. A identidade queer adiciona camadas de vulnerabilidade, onde a escolha entre visibilidade e sobrevivência não é um dilema abstrato, mas uma realidade concreta. O corpo migrante não é neutro. Não se desloca apenas no espaço, mas no olhar de quem o observa, de quem o aceita ou rejeita, de quem o reveste de estereótipos ou o reduz à sua estranheza.
O clima, como a guerra ou a fome, está entre as razões macro das migrações forçadas, e permanece visível nas cidades onde as populações racializadas são empurradas para zonas mais vulneráveis à precariedade social e económica e a desastres ambientais. Com acesso desigual a recursos essenciais, nem todos são igualmente protegidos ou expostos ao risco. Mas também no quotidiano, no micro, o corpo é percebido de formas desiguais – por vezes protegido, noutras exposto ao risco. Não é coincidência que a justiça climática e a justiça migratória caminhem juntas – ambas falam de deslocamentos forçados, de políticas de exclusão e vigilância, e da desigual distribuição das ameaças às condições mais básicas de vida e dignidade.
O cinema, como sempre, revela. É ele que nos obriga a olhar além dos números, a imaginar outros discursos políticos possíveis. Não se limita a narrar, o seu poder é levar-nos a testemunhar. Expõe e denuncia as violências que sustentam as fronteiras – as visíveis e as invisíveis, as feitas de arame farpado e as que se escondem em burocracias e sistemas automatizados. Mostra-nos que o ato de migrar nunca é apenas um deslocamento físico, mas uma luta constante para ocupar espaços, para existir sem precisar de permissão. E mostra-nos também que a esperança e a alegria podem ser formas radicais de resistência – não escapismo, mas afirmações concretas de humanidade em contextos que a negam.
Na 12ª edição da MICAR, trazemos essas histórias para o ecrã. Histórias de resistência à exclusão e ao apagamento. Histórias de fronteiras que se desmancham e de territórios que se reclamam. Histórias que recusam ser apenas desumanização e números. Histórias que, mesmo onde menos se espera, afirmam o direito à dignidade, ao riso e à pertença.